Tarifa dos EUA terá efeito limitado sobre etanol brasileiro, avaliam especialistas
A tarifa adicional de 25% dos EUA sobre o etanol brasileiro deve ter efeito limitado, segundo especialistas. Com menos de 16% das exportações destinadas ao mercado americano, o Brasil busca alternativas e conta com vantagens estruturais na produção.
A tarifa adicional de 25% anunciada pelos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro deve provocar impactos pontuais em empresas exportadoras, mas o efeito tende a ser limitado para o conjunto da economia brasileira. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil avaliam que a medida tem forte componente político e ocorre em um momento em que o mercado norte-americano responde por menos de 16% do volume de etanol exportado pelo país.
Por que a tarifa dos EUA não deve abalar o etanol brasileiro
A maior parte das vendas externas do etanol brasileiro é destinada a outros compradores internacionais, embora os EUA sejam atualmente o segundo principal destino do biocombustível. "A participação dos EUA nas exportações brasileiras já vinha diminuindo há anos. Antes mesmo do tarifaço, esse peso já era relativamente pequeno", contextualiza o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luiz Carlos Delorme Prado.
Números que mostram a baixa dependência
Em 2025, o Brasil exportou cerca de 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol, o que correspondeu a uma receita de quase US$ 1 bilhão. No mesmo período, os embarques para os EUA somaram cerca de 253 mil metros cúbicos, equivalentes a US$ 163 milhões. De acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), os Estados Unidos responderam por menos de 16% do volume exportado e por cerca de 17,5% da receita obtida com as vendas externas do biocombustível.
Vantagens competitivas do Brasil na produção de etanol
Segundo pesquisadores, a competitividade do Brasil no setor sucroalcooleiro representa vantagem na busca por mercados alternativos. Essas vantagens são estruturais, uma vez que o custo de produção no país é menor e a produtividade por hectare é maior.
Clima e solo como diferenciais
Professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), Luis Augusto Barbosa Cortez explica que fatores como clima e solo ajudam significativamente o Brasil. Ele lembra que os EUA produzem etanol basicamente a partir do milho, enquanto o Brasil, que sempre produziu a partir da cana-de-açúcar, passou mais recentemente a produzir também a partir do milho.
O clima brasileiro possibilita a produção de milho em segunda safra, algo que ocorre em escala muito menor nos EUA. "O produtor brasileiro pode colher soja até o mês de maio e, na sequência, plantar milho para colheita em outubro. Dessa forma, uma mesma área pode produzir duas safras por ano", detalhou Cortez.
Produtividade superior
Na produção a partir da cana, o Brasil produz aproximadamente 7 mil litros de etanol por hectare. Nos Estados Unidos, a produtividade chega, no máximo, a 5 mil litros. Atualmente, cerca de 75% do etanol produzido no Brasil tem origem na cana-de-açúcar, enquanto os 25% restantes são produzidos a partir do milho.
Cenário político e busca por novos mercados
Para o professor da UFRJ, o mais provável é o Brasil fazer o que já vinha fazendo: buscar mercados alternativos para o etanol produzido no país. "Claro que ninguém gosta de perder um mercado como o dos Estados Unidos, mas, nas circunstâncias atuais, pelo menos durante a atual administração estadunidense, esse mercado se tornou muito problemático porque não oferece previsibilidade nem racionalidade", argumentou Delorme.
Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Niels Soendergaard avalia que as medidas adotadas pelos EUA contra o Brasil têm "caráter eminentemente político", apesar de apresentarem uma "maquiagem técnica". Para ele, do ponto de vista técnico, a argumentação dos EUA não procede, e o Brasil cumpre as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Perspectivas para o etanol de milho no Brasil
A expectativa é que a participação do milho na produção de etanol alcance cerca de 30% da produção nacional até 2030 e que, por volta de 2050, possa se igualar à participação da cana no setor. Cortez explica que um dos motivos para o aumento está associado à integração entre agricultura e pecuária, o que torna o setor ainda mais competitivo.
"Produzir etanol de milho no Brasil está se tornando cada vez mais vantajoso. A atividade pode ser integrada à pecuária porque seu farelo serve de insumo para alimentação animal. Essa integração também traz ganhos ambientais, já que reduz a necessidade de áreas de pastagem", acrescentou.
Perguntas Frequentes
A tarifa dos EUA sobre o etanol brasileiro é definitiva?
Não há garantias de reversão, segundo especialistas. O professor da UFRJ avalia que são pequenas as chances de essa tendência de tarifação ser revertida, dado o caráter político da medida.
Quanto o Brasil exporta de etanol para os EUA?
Em 2025, os embarques para o mercado norte-americano somaram cerca de 253 mil metros cúbicos, equivalentes a US$ 163 milhões, menos de 16% do volume total exportado pelo Brasil.
O Brasil tem vantagens sobre os EUA na produção de etanol?
Sim. O custo de produção no Brasil é menor, a produtividade por hectare é maior (7 mil litros contra 5 mil litros nos EUA), e parte da energia usada nas usinas é gerada a partir da biomassa do bagaço.
O que diz a Unica sobre a tarifa?
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que, ao contrário do que os EUA alegam, as práticas brasileiras não são discriminatórias e a investigação não tem respaldo nas normas multilaterais do comércio.
O Brasil vai retaliar economicamente os EUA?
A fonte não menciona medidas de retaliação. Especialistas indicam que o caminho mais provável é a busca por mercados alternativos e o fortalecimento de parcerias mais confiáveis.